Três blocos, uma borboleta: a Rocinha ressurge em enredo de memória
Tem momento em que a câmera não consegue capturar tudo que o coração sente. É quando a história de um lugar inteiro pulsa através de cada batida, cada cor, cada corpo que desfila. A Acadêmicos da Rocinha vive isso agora, preparando seu enredo para 2027 como quem guarda um tesouro há muito tempo na memória.
A escola nasceu de um encontro tocante no dia 30 de março de 1988. Naquele dia, representantes de três blocos históricos sentaram juntos no Centro Comunitário da Rua Um e decidiram fundir suas forças. O Império da Gávea, o Sangue Jovem e a Unidos da Rocinha se abraçaram para criar algo novo. Verde, azul e branco: uma cor de cada bloco formando a identidade que perdura até hoje. A borboleta se tornou o símbolo dessa metamorfose, daquela liberdade que só a Rocinha sabe transformar em arte.
Cada um desses blocos carregava a alma de uma época. O Império da Gávea, nascido em 1966, ocupava as ruas com azul e branco. Uns anos depois, em 1974, o Sangue Jovem acendia o vermelho e branco na parte alta da comunidade. E veio a Unidos da Rocinha em 1981, verde e branco, levando as crianças para brincar de escola de samba.
Agora a Acadêmicos da Rocinha quer fazer mais que contar sua própria história. Quer reviver os anos 60, 70 e 80, aquele tempo em que a favela criava cultura do jeito que sabe: das dificuldades tirando poesia, dos batuques nascendo conversas, das reclamações virando verso. Rafael Gonçalves, o Super Intendente de Carnaval da escola, explicou que o enredo não é apenas um passeio nostálgico. É um resgate profundo, um mergulho nas histórias que moldaram a comunidade muito antes da escola existir.
O que torna essa escolha tão especial é o gesto de honrar quem construiu os alicerces. Muitos fundadores se afastaram ao longo dos anos. Esse enredo, então, é um convite para que voltem a olhar. É um click suspenso no tempo, aquele que registra não só o que se vê, mas tudo aquilo que pulsava nos corações enquanto dançavam.
Para a Rocinha, comunidade que nasceu da pequena roça plantada por migrantes em busca de vida melhor, esse é um momento de mostrar ao mundo do samba que suas raízes são profundas. Que a cultura não brota do nada. Que existe memória, existe luta, existe identidade naquele verde, azul e branco que voará nas avenidas em 2027.

