Xica da Silva volta ao coração do Salgueiro após 64 anos de ausência
Há seis décadas, Xica da Silva conquistou o coração do Carnaval carioca quando o Salgueiro a homenageou pela primeira vez em 1963. Agora, em 2027, a vermelha e branca da Tijuca traz a personagem de volta à Marquês de Sapucaí com uma proposta que promete reescrever essa história tão conhecida e tão pouco compreendida. O enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história” nasce de uma pesquisa de mestrado do enredista Leonardo Antan e de uma revelação que mexe com o que julgávamos saber sobre essa mulher extraordinária.
Em 2025, o testamento de Francisca da Silva de Oliveira foi finalmente divulgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Depois de séculos guardado nos arquivos da história, esse documento traz à tona informações que desmentem interpretações antigas e injustas sobre quem foi Xica de verdade. Não é qualquer achado histórico que move uma escola inteira de samba. Mas quando se trata de ressignificar a vida de uma mulher tão importante para a cultura afro-brasileira, o Salgueiro sente que precisa estar lá, câmera em mãos, registrando cada detalhe dessa retomada.
O carnavalesco Jorge Silveira desenha Xica a partir das pombas-gira, entidades das encruzilhadas que carregam em si a força feminina, a irreverência e a coragem de quebrar padrões sociais. É um paralelo perfeito: Francisca da Silva nascida em 1732 da miscigenação entre Maria da Costa, vinda da Costa da Mina (entre Nigéria e Benin), e Antônio Caetano de Sá, colonizador português. Escravizada, alforriada, viveu uma vida que desafiou as regras de seu tempo. Quinze anos ao lado do contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, catorze filhos, um relacionamento consensual quando isso era inimaginável para mulheres na sua condição. Xica não apenas viveu, ela rasgou as páginas do permitido.
Aquele desfile de 1963, quando a Academia do Samba apresentou o enredo em sua honra, ecoou por décadas. Arlindo Rodrigues criou uma apresentação que conquistou a segunda estrela para a escola e plantou o nome de Xica na memória coletiva do Brasil. Anos depois, em 1976, Zezé Mota a interpretou no cinema concorrendo ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Depois Taís de Araújo a trouxe para a televisão em 1996. Mas havia algo que ninguém podia contar porque ninguém conhecia: a verdade guardada naquele testamento.
No próximo Carnaval, o Salgueiro será a terceira escola a desfilar na Sapucaí na segunda-feira, dia 8 de fevereiro. Será a volta de Xica da Silva ao chão que a conhece, que a consagrou, que merecia conhecer toda sua história. Um bom click fica para sempre, e esse momento em que a história se reescreve diante de nossos olhos certamente será um deles.

