GRUPO ESPECIAL

Oyá por nós: quando o samba guia a Mangueira de volta para si

Há momentos em que um enredo não nasce de um conceito, mas de uma verdade que já pulsa nas ruas, nos corações, nas vozes das mulheres mais velhas. Foi assim que Sidnei França chegou à Mangueira e, ao invés de impor sua visão de carnavalesco, abaixou a cabeça e ouviu. Ouviu tanto que reconheceu em cada canto, em cada encontro na comunidade, uma expressão que pedrava para virar desfile: Oyá por nós. Não era um grito de protesto ou uma novidade inventada. Era, simplesmente, a Mangueira falando consigo mesma, aquilo que as baianas, as guardiãs do morro, já sussurravam há tempos. Quando o artista finalmente compreendeu que seu papel era conduzir a escola para que ela se encontrasse, tudo mudou de lugar. O desfile deixou de ser seu projeto para se tornar a voz amplificada de quem vive o samba todos os dias.

Mas uma escola de samba, com S maiúsculo, vive pelo seu samba. E é nessa certeza que Sidnei França constrói seu trabalho na Mangueira: a canção escolhida não apenas ilustra o enredo, ela o comanda. Quando o compositor entregou uma obra que abraçava a sinopse e ainda trazia versos de uma força arrebatadora, como aquele que invoca o despacho da intolerância em um ebó, o carnavalesco reconheceu que não precisava reescrever nada. O samba já sabia o caminho. Agora, na reta final para o centenário, a Mangueira segue aquecida por essa escolha que a comunidade fez ecoar, pronta para cantar eternamente uma narrativa que é, antes de tudo, sua.