Lalú de Ouro: um Rei Coroado na Folia é o enredo 2027 da Lins Imperial
Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.
Um dia, bradei Adeus, Estrela Brilhante. Adeus, Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.
Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.
Fui me refazendo em outros ritmos.
Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.
Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.
Atravessei mais uma vez o mar.
Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.
E eu, Rei. Coroado na Folia.
Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus. Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.
Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuqu

